domingo, 6 de setembro de 2015

Ausências

Sou uma pessoa das ausências, nunca estou nos almoços de domingo, na festa de aniversário, sempre estou longe. Vez ou outra venho, vou, apareço. A distância é minha grande desculpa.
Mas e quando não há distância, dias vão passando, chegando, continuo ausente. O interfone não anuncia, a caminhada segue sozinha, o telefone sempre um constante silêncio. Não sou apenas ausente, há muitas ausências em minha vida. Ausências pela distância, ausências pela não falta.
Sinto a solidão tomando conta de cada parte do corpo, não é tristeza, é falta... Sinto ausências e faltas. Não existem compromissos, risadas, histórias e conversas. E assim, os dias vão chegando.
E como tudo, vou me acostumando.

domingo, 1 de março de 2015

Lábios sem sorrisos.

Sentada, quieta. Tomava uma xícara de café. Às 9:30, como sempre, pegou sua bolsa e apertou o P. Mais um dia. Mais um dia. Entrou no carro e ligou o rádio. Fazia cada coisa, todas elas, como sempre. Não pensava em nada. Quando parou o carro, sinal vermelho, viu uma senhora cruzando a faixa de pedestre, tinha o rosto com tantas marcas, cavidades e um cabelo longamente branco. Observou, 90 anos? Sorria. Meu Deus, ela sorria.
Olhou para o retrovisor, viu lábios murchos, caídos, nenhum sinal de sorriso. Há quanto tempo não sorria? Há quanto tempo pegava a sua bolsa, sempre às 9:30, e dirigia rumo ao trabalho. Odiava o que fazia. Atender telefone. Informar preços. Reuniões. Preços. Telefone. Como aquela senhora sorria?
Lembrou dos antigos sorrisos que um dia dera, sorrisos altos, graves que enchiam a sala, o corredor, a alma de qualquer um de alegria. Em que momento os perdeu? Onde andavam. 12:30. Hora do almoço, descia para a lanchonete da esquina, o de sempre? Não. O garçom saiu meio atordoado, há quanto tempo almoçava ali? Seis anos. Sempre, segunda-feira, comia salada de alface com beterraba e frango grelhado. Macarrão, suco de laranja e um pudim de leite. O garçom ficou alguns segundos olhando para ela, perguntando em silêncio se ela tinha certeza. Anotou o pedido e saiu. Ela observava as pessoas no restaurante de quinta, pessoas sorriam, umas discretamente, outras davam grandes gargalhadas, alguns, como ela, olhavam para baixo, tensos, esperando pelo prato. Ela arriscou sorrir, não sabia mais. O garçom, outra vez, ficou olhando, era a primeira vez que a observava, estava ali todos os dias, mas não valia observação, era sempre a mesma. Igual, mesmo cabelo, prato, refrigerante zero. Café. Conta e ia sem merecer grandes atenções. Foi bonita, pensou o garçom. E voltou a servir os clientes. O lugar estava cheio, mais que de costume.
Entregou o prato de macarrão, o suco e pudim, tudo de uma vez. Ficou parado olhando aquela mulher de 40 anos? Seria a primeira vez que comeria macarrão, pensou ele. Ela admirava o prato, quantos anos sem macarrão? Estava sempre comendo o mínimo, tomando zeros e cafés. Pegou os talheres e sorriu discretamente para o garçom, ela sorriu pra mim? Tentou pelo menos. Ela estava estranha. Aquela de sempre era mais fácil de lidar, não tinha mistérios, sorrisos discretos, tentativas deles, não ficava me olhando. Chegava, sentava e pronto. O de sempre. Não sabia lidar com essa nova "ela". Esse sorriso discreto, atormentava. Ele se esqueceu de todos os outros clientes, sentou e observou. Ela comia devagar. Quanto tempo sem sentir esse sabor. Devorou o prato, não vorazmente, lentamente. Tomava o suco. Comia. Dentro dela, o calor, o sabor daquele prato preenchia os vazios de tanto tempo, a cada garfada sorria um pouco mais, chegara ao pudim, leve. Comia. Ele a olhava, seus cabelos estavam soltos, seus olhos, pouco a pouco, com mais cores. Estava renascendo. Finalmente, terminara. Levantou-se. Olhou para ele, séria. Pagara a conta, quando ele pergunta por que aquela mudança? Não saberia atender aquela nova. Ela olhou e sorriu.
Saiu. Sentou-se na praça, como de costume, olhava para si buscando outros sorrisos. Arriscara mais um que timidamente apareceu para brincar no parque.